Tamara Rojo está se despedindo do English National Ballet (irá assumir a direção artística do San Francisco Ballet), mas não sem antes deixar um grande ballet em seu nome. Um super clássico, Tamara escolhe Raymonda para deixar um recado para outros criadores e diretores: podemos acolher as críticas feitas e evoluir em cima de problemas e esteriótipos que o ballet carrega.
Raymonda (1898) no seu original é uma história de uma nobre, na época das cruzadas que é comprometida com um cavalheiro, mas tem uns sonhos muito loucos e quando acorda para a festa de retorno de seu amado, percebe que uma parte do seu sonho era verdadeiro. Um sarraceno invade a festa e tenta rouba-la à força para que ela se torne sua esposa. O noivo de Raymonda chega, causa a maior briga, mata o outro coitado e depois eles vão e se casam no famoso Grand Pas de Hongrois.
Sacou que Raymonda é basicamente nada, apesar de dançar o tempo todo (ela tem uns 5 solos), seu noivo, Jean de Brienne é seu salvador existe uma caracterização excessiva e caricata do sarraceno Abderakhman. Quase como uma desculpa para fazer a bailarina Pierina Legnani dançar e fechar com a audiência. Muitos solos de Raymonda são encenados em festivais e a música é divina. Realmente o que deixava a desejar é essa narrativa aí.
Os três bailarinos principais da primeira produção do ballet
Não vou adereçar esse certo fetichismo que os ballets de Petipa tem pelo oriente e tal, mas dá pra perceber que a forma que são caracterizado os 3 deixa a muito a desejar. E aí é onde que eu acho que Tamara Rojo foi incrível: ao contrário de certa onda de coreógrafos de manter a história e mudar a coreografia a partir de Petipa, ela manteve a coreografia quase intacta e transpôs a história para um contexto onde fazia mais sentido, onde a mulher poderia ter mais protagonismo e a dramaturgia poderia ser bem mais explorada. Eu não vi o ballet, só vi pedaços e só pelo fato dessa mudança de paradigma eu já dou 100% de crédito.
Ela transportou a história para a época da Guerra da Crimeia, tendo a enfermeira Florence Nightingale como inspiração. Acho legal que nesse
vídeo aqui ela explica que ela queria aproveitar o legado de Petipa, como aproveitam o legado de Shakespeare no teatro, tendo vários diretores apresentando suas versões para um mesmo texto. E todo o design da produção se baseou no que era vigente na Inglaterra dos anos 1850, a era vitoriana.
Bom, eu achei essa atitude super inspiradora porque foi uma coisa que eu sempre pensei: porque ao invés de fazer uma corte francesa do século XIV a gente não faz um subúrbio europeu, que seja, mas só pra trazer informações novas de cores, modelos, histórias. E já adianto que, se alguém aqui acompanha a minha saga na Pós de ballet clássico, o trabalho final vai ser 100% nessa pegada. O que não falta no mundo são maneiras de garantir que o clássico continuará clássico, apenas com uma roupagem nova. Estou doida pra ver ele inteiro, não sei como, torcendo que façam uma transmissão e que chegue até nós. E isso só prova mais uma vez a força de Petipa como grande criador. Tamara, você arrasou muito!!
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