Coppélia com um olhar de cartoon (Coppélia - Royal Ballet, 1954)
| Fotografia: Tristram Kenton/The Guardian |
Quando eu vi a versão do Royal Ballet de Coppélia pela primeira vez, eu fiquei muito intrigada. Muito pela coreografia e pela música que é uma delícia de ouvir, mas também pelos figurinos. Me chamaram muita atenção porque não eram exatamente aquela coisa romântica, suave, delicada que se encontra em algumas produções, mas algo bem forte, marcante pelo uso das cores bem saturadas e pelo design de superfície bem gráfico.
Essa lembrança do ballet me perseguiu tanto e por isso que eu decidi começar por ele essa série de posts, de investigações, de discussões sobre figurino para ballet (vai ter um pouco de musical, ópera, cinema, mas principalmente dança). Essa pulga atrás da orelha dessa junção do design gráfico e de figurino foi o que me fez querer escrever sobre figurino em primeiro lugar. E durante as minhas pesquisas, eu estava com o faro correto, porque a pessoa que criou os figurinos nada mais era que um cartunista e designer: Osbert Lancaster (1908-1986).
Cartoons tem um poder de síntese muito grande, porque precisam comunicar uma ideia em um espaço muito pequeno, geralmente usando poucas palavras e também poucas cores. E é exatamente isso que eu sinto nessa produção de Coppélia: um poder de síntese gráfica muito grande e espaços de cores muito bem definidos.
A história se passa na Polônia do século 18, numa vila pequena, então não é um ballet de luxos, mas de delicadezas da cultura popular. Podemos ver nessas indumentárias uma forte presença de bordados de motivos campestres e das cores básicas: preto, azul, vermelho, branco. Também temos as touquinhas, lenços, mangas bufantes, rendas e aventais bordados.
| Amigas de Coppélia versão popular |
Numa boa pesquisa de figurino, você deve ir bem a fundo nas linguagem daquela inspiração, mas ao mesmo tempo fazer escolhas significativas porque o figurino não é exatamente uma réplica, mas uma leitura pertencente a um tempo e a um lugar, recebendo influências da época pesquisada, mas também da época em que a produção foi feita.
O tutu vermelho da boneca também é maravilho, divertido e incrivelmente difícil de ser executado devido aos inúmeros triângulos que foram a composição. Mas é um tutu de boneca, oras, então o fator brincadeira deve ser levado em conta. E combina perfeitamente com a paleta de cores do resto do corpo de baile como:
E o que falar dessas mangas do corpo de baile masculino que permanecem em forma de sino, mesmo depois de dançar o tempo todo? Truque: um pesinho costurado na bainha ajuda a manter a forma e um elástico ajuda a manter no lugar para que a manga não se dobre inteira quando estiver fazendo 5ª posição.
Acho que essa é a versão de Coppélia que eu mais gosto porque eu vi claramente a pesquisa do design por trás. Claro que Marianela Nuñez é incrível no papel, mas ver uma paleta de cores assim tão viva, com um elementos gráficos tão marcante, com um design de superfícies diferente do que a gente vê geralmente em Coppélia, me fez amar cada segundo e aproveitar a coreografia. Se o figurino nos ajuda a entender o personagem com segundos de aparição, esse conjunto de designs mostraram como é possível utilizar estampas populares (numa versão grande pra toda a plateia enxergar) e ainda mais fugir do óbvio com silhuetas mais simples, mas adicionando um sabor e um elemento visual fora do usual.

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