West Side Story: lições de Paul Tazewell

 


Gente, vocês já viram West Side Story (2021) nos cinemas? Eu assisti e eu não sabia se olhava para atuação, escutava a música tentava desvendar a coreografia, prestava atenção nos figurinos. O filme é uma obra-prima de um musical que é clássico e eu amei demais tudo. Mas como recentemente minha paixão por figurinos está mais aflorada, a qualidade e a narrativa do vestuário foi o que mais me saltou aos olhos, graças ao Paul Tazewell, figurinista que também desenhou Hamilton (inclusive tem pro-shot na Disney+).

Eu não vou tentar aqui fazer uma master análise do figurino na linguagem do cinema, porque tem muitas entrevistas legais dele em inglês e diversos vídeos mostrando o processo e que eu vou deixar o link aqui: Vogue EUA | Variety | Harper's Bazaar

O que eu vou tentar nesse post é colocar em palavras o que eu senti quando eu entendi o arco dramático, paleta de cores e escolhas de tecido e texturas do filme, para um espetáculo de ballet. Simplificar e tirar lições aplicáveis num contexto de produção menor e sem tantos recursos, mas que é pode ser capaz de gerar tanto impacto e movimento quanto um orçamento de 100 milhões de dólares :P

Bom, nas entrevistas de Paul, e durante o filme, fica muito claro que ele escolheu uma paleta de cores e tecidos para os Jets e outra bem contrastante para os Sharks. O motivo é psicológico, a vizinhança dos Jets está sendo destruída para a construção de residências mais modernas e então a paleta e toda de azuis, verdes, jeans, couro, all-stars. Pelo lado dos Sharks, eles carregam um otimismo de mudar de vida em Nova Iorque e suas roupas refletem nisso com amarelos, laranjas, vermelhos, tons terrosos, muito linho e cores naturais. A iluminação também é totalmente diferente para os dois lados.


Cada gangue tem 30 integrantes - 15 meninas e 15 meninos (fora a figuração, então imagina só o tamanho da equipe pra preparar isso). Vou colocar alguns prints do insta do figurinista mostrando também que para cada pesquisa teve um desenvolvimento de modelagem, estamparia, acabamento de costura diferentes e de fornecedores distintos. Realmente é riqueza o tempo todo no filme e vocês deveriam ver todos os posts!



Ter acesso a um detalhamento tão vasto da feitura do filme me deixou muito empolgada com as aplicações num corpo de baile de ballet por exemplo. Numa película, o olhar do filme é direcionado pelas lentes e no teatro é totalmente diferente. Mas será que a riqueza do ballet só tá nas rendas e na quantidade de pedras, mas também pode estar numa investigação mais detalhada das cores e do efeito visual de cada modelagem. Onde se pode encaixar uma anágua e uma saia godê? Será que para essa cena podemos contar com um tecido estampado? A pesquisa do design do figurino está indo além de grandes companhias de ballet ou tem também um faro para outras formas de registro de vestuário?

Vejam, o primeiro print foi inspirado numa foto dos anos 50, o segundo mostra aí uma pesquisa de tingimento e o terceiro é a reprodução de uma estampa original também de época. E todos os 3 são usados em momentos de dança no filme, adicionando várias camadas. Atrás dos personagens principais tem detalhes que deixam a cena muito mais saborosa. Então o figurino está de mãos dadas com a coreografia também. Anita usa cores mais sólidas, enquanto seu corpo de baile está bem mais estampado e colorido! Isso a deixa apagada? De jeito nenhum porque o amarelo dela é o mais saturado da tela, todos as outras vestes partem dela.

Acho que o que mais me impressionou no filme como todo é a criatividade e a lição mais importante é que apesar de ser um remake de uma obra mais que consagrada (pense agora em Lago dos Cisnes, Giselle ou Bela Adormecida), o guarda-roupa do filme conta a sua própria história e o diferencia do anterior, mas mantem a mesma essência. Será que Giselle precisa ser sempre azul ou todos os vestidos de camponesas precisam ser iguais? Vocês de verdade já procuraram gravuras de camponeses da época mais ou menos de Giselle? Ballet precisa de pesquisa, aprofundamento e arcos dramáticos contados através das roupas também. Vamos aprofundar esse debate?

Deixo aqui no final o link de uns pedacinhos de dança do filme - coreografado por Justin Peck (Pense em outra tarefa difícil, contar sua própria visão depois de Jerome Robbins 😅)




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