Carnaval e ballet?

 


Como pernambucana, posso dizer que estou bem triste nessa época que suspenderam o carnaval de rua. Mesmo morando em Curitiba eu senti daqui a baixa de energia lá da minha cidade. Passei fevereiro inteiro escutando frevo e ao mesmo tempo que anima, deixa aquela melancolia. Porque pra mim o carnaval é a coisa mais criativa do mundo, tanto no tempo quanto no espaço. Amo todas as manifestações, saindo do frevo, caboclinho indo até o samba. Amo essa ideia de se fantasiar e dançar até não conseguir mais. 

Eu respeito muito carnaval e acho que todo mundo deveria ter o direito de brincar feliz e livre. Aqui não cabe eu ficar explicando como o carnaval começou e porque o carnaval de rua incomoda. Mas como toda onda de conservadorismo e privatização a manifestação popular se torna a maior vítima, afinal se não tem bloco não deveria ter festa privada...

Mas como eu quero falar sobre a alegria que o carnaval traz, eu vou deixar aqui duas sugestões de documentários sobre a o carnaval de 2016 da Mangueira. Sua homenageada foi a grande Maria Bethania (Maria Bethânia: A menina dos olhos de Oyá) e com esse tema ela foi campeã! 


O primeiro documentário se chama "O próximo Samba"e ele está disponível no Amazon Prime. Neste ele foca mais na preparação da agremiação para o desfile. Tem partes muito bonitas sobre a participação da comunidade, assim como tem umas partes muito legais sobre a visão de design, unidade e harmonia do carnavalesco. Já dá para ver pelo poster que colocar um samba enredo envolve muita criatividade, disposição e planejamento. Eu chorei no final porque carnaval é isso, colocar um sonho para nascer. E o que tem a ver como ballet? O documentário explica bem como contar uma história com uma única música, só fazendo a progressão de uma narrativa com alegorias, dança e fantasias. A capacidade de exploração visual dos conceitos e desdobramentos é incrível. Realmente é um trabalho de uma primazia indiscutível.

O segundo documentário mostra mais a relação de Maria Bethânia, Santo Amaro da Purificação (sua cidade), o Rio de Janeiro e a Mangueira. Não conta exatamente como foram feitas as fantasias, mas ligando um documentário com o outro você passa a entender com mais profundidade as escolhas do carnavalesco para o tema, como a religiosidade, sincretismo e a família Veloso. É muito bom escutar Bethânia falando sobre cultura popular e o papel dela como propagadora dessa cultura. Tem imagens que Caetano gravou da cidade em plena festa de Nossa Senhora da Purificação. E é por isso que o documentário se chama Fevereiros: porque em fevereiro tem a festa da padroeira (02/02) e o carnaval. Uma das músicas que Bethânia canta em shows tem esse trecho: Trabalhei o ano inteiro/ Na estiva de São Paulo/ Só pra passar fevereiro em Santo Amaro. Que felicidade é ter um mês todinho de alegria. Amor, festa e devoção, três coisas que aprendi com Bethânia sobre bem-viver e acho que os dois documentários mostram muito isso.

Ballet conta uma narrativa tanto quanto um samba-enredo. E o que eu gosto muito em escola de samba é a diversidade de temas que eles pesquisam, trazendo referências muito inusitadas para cumprir os requisitos do desfile, dividindo nas suas mais diversas alas. Ballet só tem a ganhar estudando a cultura popular e contando histórias da gente. Eu sei que existem vários ballets brasileiros trazendo partes da gente, mas é aquilo, somos imensos e tenho certeza que sempre tem o que falar sobre a história da gente com muita criatividade, como o carnaval é.

Bom carnaval pessoal, se cuidem, tomem as vacinas e ano que vem a gente vai se fantasiar juntos aqui no blog! :)



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